segunda-feira, 28 de abril de 2014

A postura de Paulo Nobre e o "coitadismo" brasileiro.

Leonardo Matos
28 de Abril de 2014

Já não é segredo para ninguém que uma espécie de mentalidade que chamamos de “coitadismo” é dominante hoje no Brasil. Diversos grupos acreditam sinceramente serem vítimas da sociedade, dos poderosos, dos políticos, dos banqueiros, enfim, de qualquer um que tenha possibilidades de conseguir aquilo que o “coitado” não conseguiu. A culpa nunca é do “coitado”, mas do outro, das circunstâncias, dos “malvados” que lhe tiram todas as possibilidades de progredir.

Essa mentalidade “coitadista” chegou agora ao universo futebolístico e o caso mais recente em que a observamos é o da transferência do atacante Alan Kardec da Sociedade Esportiva Palmeiras para o São Paulo Futebol Clube.

Nesta segunda feira Paulo Nobre, presidente do Palmeiras, confirmou que Kardec não joga mais pelo alviverde e será em breve oficializado como contratação do tricolor. O mandatário palestrino não perdeu a oportunidade de criticar a diretoria tricolor, acusando o clube do Morumbi de agir de forma antiética, ao negociar com o atacante e com o Benfica, clube que detém os direitos federativos sobre Kardec sem comunicar a diretoria do clube de Parque Antártica.

A notória a manifestação do “coitadismo” por parte de Paulo Nobre que, apesar de admitir a irresponsabilidade financeira histórica das diretorias anteriores, coloca totalmente em segundo plano que as sucessivas más administrações impossibilitaram o Palmeiras de proporcionar aos seus profissionais, no presente, melhores condições de salários e planos de carreira, tendo inclusive lançado mão da inteligente estratégia de remunerar os atletas por produtividade, medida que, apesar de administrativamente eficiente, é pouco atrativa aos jogadores, que querem salários fixos sem estar à mercê de maus resultados ou lesões que lhes diminuam a tal produtividade.

Paulo Nobre culpa então o recém-eleito presidente tricolor Carlos Miguel Aidar de retirar do Palmeiras o poder de negociação com o atacante já que, com a proposta superior do clube do Morumbi, Kardec não se interessou mais nas propostas mais modestas e no plano de carreira até certo ponto instável do clube de Parque Antártica como se, na ausência do tricolor do Morumbi, o Palmeiras pudesse milagrosamente oferecer a Alan Kardec mais do que aquilo que já tinha oferecido em uma negociação que, diga-se de passagem, se arrastava desde fevereiro, condições que inclusive já estavam no limite das possibilidades do clube.

Vale ressaltar que o Palmeiras não detém, sequer, os direitos federativos sobre o jogador, que foi emprestado pelo Benfica ao alviverde, sendo que contratualmente o Palestra teria o direito apenas de preferência de compra, não sendo proibido a qualquer agremiação, demostrar interesse pelo jogador e informar tanto o atleta como o Benfica das possíveis condições de negociação.

O Brasil hoje é um país de coitados. Pobres que vivem à custa do governo, pois os ricos lhe impedem de progredir; negros que querem cotas em empregos e universidades, pois os “malvados” brancos não lhe permitem o ingresso pelas regras normais; homossexuais que querem aprovar leis penais especiais para combater seus “malvados opressores”; criminosos que, segundo a mentalidade “coitadista”, são obrigados a cometer crimes pois a sociedade não lhes proporciona oportunidades. É sempre mais confortável culpar o outro pelo prejuízo que se tem em uma auto complacência que impede de ver os próprios erros. E essa mentalidade chegou ao futebol.

O rombo nos cofres do Palestra Itália, fruto de administrações incompetentes e corruptas do passado, tornou-se um mero detalhe para o mandatário palmeirense. A falta de ética de um outro clube que “ousou” apresentar ao atleta condições de salário e carreira mais vantajosas é a verdadeira fonte dos problemas. No raciocínio de Paulo Nobre, se não fossem os “malvados antiéticos do outro lado do muro”, o Palmeiras poderia continuar contando com os gols do principal goleador alviverde.

Não esqueçamos que a incompetência da diretoria palmeirense foi, entre outras coisas, o principal motivo da perda do atacante argentino Barcos para o Grêmio de Foot Ball Porto-alegrense, que levou o “hermano” após pagar algumas dividas que a diretoria anterior havia deixado para a administração de Paulo Nobre. Na ocasião, a Liga Desportiva Universitária do Equador, detentora de 30% dos direitos econômicos do atacante, acusou o Palmeiras de dever US$ 750 mil (cerca de R$ 1,5 milhão) e ameaçou discutir a questão na FIFA, sem esquecer, é claro, que o verdão ainda devia pagamentos ao próprio Barcos.

Para coroar a postura “coitadista” e irracional de Paulo Nobre, o mandatário demonstra um rancor histórico e injustificado, declarando que as relações com o tricolor são ruins desde a década de 40 quando o clube do Morumbi teria tentado “roubar” o estádio palmeirense e atuado para obrigar a mudança de nome “Palestra Itália” para “Sociedade Esportiva Palmeiras”..

A grande realidade, é que tal mentalidade “coitadista” e, até certo ponto, beligerante do presidente alviverde esconde da torcida a importância dos próprios erros da atual diretoria palmeirense, bem como das diretorias passadas e coloca a culpa nos “malvados tricolores” que “nos perseguem desde a década de 40”, acirrando assim uma rivalidade nem um pouco sadia, transformado torcedores rivais em inimigos..

Nenhum comentário:

Postar um comentário